Tudo bem, eu sei que meu último post foi dessa mesma TAG, mas algumas coisas precisam ser ditas e esclarecidas enquanto você ainda tá com o assunto formigando na cabeça.
Meu cabelo é naturalmente cacheado, mas ao longo da minha adolescência eu sempre busquei formas de burlar isso usando químicas diversas e muita chapinha. Hoje, eu estou em processo de transição capilar (que é deixar o seu cabelo natural crescer enquanto você vai cortando o alisado até ele ficar totalmente seu e sem química), um período bem complicado.
Como consequência dessa minha (difícil) fase da volta aos cachos eu me peguei pensando sobre todos os motivos que me levaram a negar as minhas raízes. Não é surpresa pra ninguém que quando você é criança sempre tem a Barbie, a menina popular do colégio, a protagonista da malhação e milhares de meios que te levam a acreditar que tem algo errado em você, que te fazem ficar com a auto estima baixa achando que pra ser bonita tem que seguir esse padrãozinho imposto.
Também não é surpresa pra ninguém o bullying que a gente sofre nessa fase se o seu biotipo não seguir a linha comercial de TV, de uma forma que você fica mal por não ser daquele jeito e mal por ter um monte de gente te lembrando -da pior forma possível- que você não é. No meu caso, essas coisas sempre aconteceram por conta do meu "cabelo ruim", do meu "cabelo bombril".
Aí chega a adolescência e você começa a achar que pra dar o primeiro beijo, pra arrumar o primeiro namorado e pra que os meninos olhem pra você de outra forma você precisa ser daquele jeito das bonecas que você resolveu abandonar. Aí não tem jeito, você vai encontrar uma forma de mudar -o que muitas vezes nem dá certo, mas paciência.
Quando eu vi que não tinha creme de cabelo que resolvesse o meu problema não deu outra, química na certa! E aí começou a minha árdua e longa rotina de salão, produtos, não poder ir na praia, não tomar banho de chuva, não praticar exercício, encucar com retoque a cada três meses e um cabelo acabado depois disso. Arrependimento bateu e eu, quis voltar aos cachos. E não por que meu cabelo tá na pior e sim por que eu acho cabelo cacheado lindo e quero os meus de volta. Por que eu aprendi a me aceitar da maneira mais dolorosa possível.
Aí conversando com uma amiga que já passou pela mesma coisa e que hoje faz parte da organização de um evento chamado Encrespa Geral ela me contou um depoimento que ouviu no último encontro. Uma menininha de oito anos, que ouve todos os dias de outras crianças que vão cortar o cabelo dela pra lavar louça... Aí eu fiquei entalada, mas esperei chegar em casa pra chorar, e muito.
A verdade é que é muito fácil pra quem vê a situação de fora dizer que é besteira ou interrogar alguém de "por que você alisou o cabelo? Ele era tão lindo...", a verdade é que é totalmente compreensível que essa criança cresça sem perceber o quanto ela é linda do jeito que é, que ela cresça com a mentalidade que eu cresci. E viver em guerra consigo mesma, e perguntar-se todos os dias "por que eu nasci assim?" E olhar para os cabelos lisinhos de outra pessoa e desejar ter eles pra você. Tentar ser algo que você não é, ter preconceito com a sua própria identidade.
Eu não consegui parar de pensar nessa garotinha desde então. Eu me olho no espelho hoje e quero meu cabelo de volta pra mostrar pras outras crianças como ela que você pode ser bonita de qualquer jeito, que pra ser feliz não precisa ter cabelo X ou Y, nem muito menos ser como a Barbie. E que se o Ken não te quiser por isso, ele é quem perde.
E pra finalizar o desabafo eu peço para vocês que, sempre que verem uma garotinha com cachos, as elogiem, por que isso pode mudar uma trajetória difícil pela qual eu tô passando e não queria que ninguém mais precisasse passar. Elogiem uma garotinha de cabelo crespo, por que cabelo crespo é também cabelo bom, é também cabelo bonito.